Cade meu Vinho Portugues

Cade meu Vinho Portugues

 

Aos Amigos de Alma Lusitana

Ricardo Albergaria

 

    Acordava domingo cedinho e saia correndo para o banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes. De cara e boca limpas lá ia eu para a farta mesa do café da manhã disposta na varanda próxima às parreiras de meu pai. Minha mãe, como boa lusitana, produzia um desjejum variado: leite, café, chá, suco de uva, frutas, pãezinhos, broas, pasteizinhos de nata, queijos de minas, queijos da serra (este último hoje custa uma pequena fortuna) e outros quitutes. Após esta experiência gastronômica me sentava na sala de TV para assistir junto aos meus familiares ao programa “Caravela da Saudade”, na extinta TV Tupi. Era um momento só nosso, onde podíamos viajar mentalmente pelas histórias que minha mãe contava enquanto grupos de danças folclóricas portuguesas se apresentavam. Vivíamos a alma portuguesa e a podíamos sentir através do aromas do bacalhau, dos doces portugueses que exalavam da cozinha e se espalhavam até atingir nossos narizes, estimulando sensações olfativas que tornavam mais perfeito aqueles momentos. De repente ouvia-se a frase: “Silencio que se vai cantar o fado! Recaído sobre os ombros de Amália Rodrigues transluzia um xale, que embora de cor negra trazia em si, bordados de cores vivas. A sonoridade utópica nos enfeitiçava e, então ouvíamos àquela saudosa cantora e seus prantos acompanhando o lamento da guitarra portuguesa. A melodia ganhava forma entre os dedos que percorriam as cordas, nos permitindo conhecer os sentimentos que minha mãe trazia em sua alma. Ainda hoje sou um fã ardoroso do fado, e confesso, sem constrangimento nenhum, que me vejo as lágrimas em vários momentos quando o escuto. “Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflete o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste. O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa”. (Fernando Pessoa).

    Após o programa íamos à missa na matriz, que ainda hoje é celebrada pelo mesmo Padre Antônio. Voltávamos para o almoço, que via de regra reunia as famílias lusitanas de Olímpia no interior paulista. Aquela tradição de cidade pequena de juntar uns quantos tantos amigos para jogar conversa fora enquanto se degusta de um bom almoço. Mas como essas reuniões eram constituídas por famílias portuguesas, além das conversas sobre a pátria mãe, comia-se muito bacalhau, degustava-se muito vinho português e as sobremesas eram repletas de doces portugueses. Recordo-me das agualvas, dos caprichos de Setúbal, dos pastéis de nata, dos pastéis de Santa Clara, das ambrosias que nunca levaram ovos, pois o leite era talhado para dar aquela característica de grumos ao doce de leite. Nasci e cresci neste meio lusitano, rodeado de Oliveira, Pereira, Moço, Martins, Gonçalves, Albergaria, Barros, Prado e Soares. Não tem como negar... Sou um brasileiro de alma lusitana, amante do fado e do bom vinho português. Como todo lusitano, também trago no peito a melancolia, que é na realidade uma espécie de saudade que sentimos dos amigos que ficaram e dos que se foram. Maria Antonia, Davidinho, Tetê, Decinho, Sheila, Benebá, Maria da Glória, Maria Aparecida, Maria da Graça, Zé Afonso, Cristina, Zé Rubens. Paulo Roberto, Fernando, Margarete. Oliveiras, Pereiras, Gonçalves, Moços, Albergarias, Barros, Soares, Prados e Martins. Quantas vezes não nos reunimos em amplas varandas ou em baixo de uma parreira (em minha casa havia uma enorme) simplesmente para celebrar o ato de se estar junto. Hoje à distância e o tempo não nos permitem a constância destes encontros e, a escassez da presença desses amigos faz com que eu me interrogue constantemente sobre o porquê dessa pressa desenfreada que nos faz correr atrás da vida, quando a vida deveria caminhar ao nosso lado e não a nossa frente. Sento com minha esposa Célia ao final de algumas tardes para conversar e degustar um vinho e me pego surpreendetemente a me perguntar: Cadê meu vinho português?  Embora esteja tomando um deles naquele momento, ainda me faltam os amigos lusitanos que ficaram na infância e na juventude de outrora. Algumas vezes apenas pego numa taça para beber aquele néctar delicioso como se naquele instante pudesse reatingir o passado repleto desses amigos e familiares, que permitiam as nossas almas viver um paraíso que nos estava reservado aqui mesmo na Terra. Eu gostava e gosto desses pequenos prazeres que me fazem sorrir, mesmo quando carregados da melancolia típica lusitana que trago na minha genética. Naturalmente lembro-me melhor desses pequenos prazeres e desses amigos a quem me apetece abraçar, até porque todos os anos o vinho é diferente e as bacalhoadas são outras, mas esses amigos mantêm em nossos corações e mentes as recordações daqueles momentos mágicos de outrora. Ando sempre a pensar naqueles dias e assim sendo vou beber uma taça de vinho tinto português, pois como sei faz bem ao coração. E este meu coração, quero manter sempre nos seus movimentos constantes de sístoles e diástoles, para que sadio possa manter meus amigos e familiares guardados em seu interior com muito carinho.

 


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