CHILE - TERRA DOS VINHOS - VALE DO MAIPO - Capitulo 2

 

Ricardo Albergaria

 

Como escrevi na semana passada, por mais três semanas estaremos discorrendo sobre o Chile e seus vinhos. Nesta segunda semana o tema será o Vale do Maipo com seus vinhos e grandes vinícolas.

Vale transversal que cruza, seguindo o curso do Rio Maipo, desde a Cordilheira dos Andes até o Oceano Pacífico e que, se subdivide em sub-regiões, tendo como principais as de: Santiago, Talagante, Pirque, Llano del Maipo e Buin. Região Vinícola e Apelação de Origem Controlada  mais reconhecida e tradicional do Chile, onde foram fundadas as primeiras vinícolas. Atualmente a superfície total de vinhedos alcança a nove mil hectares plantados para vinhos tintos e mil e quinhentos hectares para vinhos brancos. As vinícolas se localizam no piemonte da Cordilheira dos Andes a uma altura de oitocentos metros sobre o nível do mar até a Ilha de Maipo e Talagante ao sudoeste do Santiago. Essa zona se encontra no topo do Vale Central e seus limites naturais são, a leste a Cordilheira dos Andes e a oeste a Costa do Pacífico.

O solo é em geral aluvial com boa porosidade e drenagem e, sua textura é franco-argiloso-limoso. O Vale possui um clima temperado denominado pelos chilenos como tipo mediterrâneo, com um verão seco, de dezembro a março, com uma temperatura média de 250C, e a média anual de 140C. Na área do piemonte da Cordilheira dos Andes a oscilação térmica pode alcançar ate 200C. As chuvas se concentram entres os meses de abril a setembro, com um pro-médio anual de 330mm.

A produção vinícola do Vale do Maipo é bem representada por vinhos para exportação, com grandes vinícolas, tais como a Undurraga, Concha y Toro . Atualmente são produzidos vinhos brancos e tintos, principalmente das castas Semillon Blanc e Cabernet Sauvignon, com os melhores apresentando aromas bem desenvolvidos de frutas, bom corpo e envelhecimento em barricas. Uma nova concentração em plantio nas encostas da Cordilheira dos Andes promete vinhos com caráter do excelente terroir local. Embora as duas cepas anteriores sejam bastante utilizadas, outras como os encorpados e densos Merlot e Cabernet Franc envelhecidos em barricas de carvalho americano e francês, o notável Carmenère e os distintos Malbec, Syrah e Chardonnay, também são vinificadas no vale.

Após nossa participação como palestrante no Congresso na cidade de Temuco, na Vale de Itata ao sul do Chile, voltamos à Santiago e, no dia seguinte combinamos traslados pelos outros oito dias com o Sr. Sergio Aldunce, que nos levou para conhecer algumas vinícolas deste vale. Você pode esperar duas coisas das vinícolas chilenas: a primeira é a poesia de suas caves e a segunda são informação, hospitalidade e bons vinhos. Estas caves são muito antigas, e a maioria delas é subterrânea, o  que não elimina a necessidade do ar-condicionado para manter a temperatura entre 100C a 150C.. Quase todas são construídas com tijolos e calicanto (massa feita de areia, cal e ovos de galinha).

Iniciamos nosso passeio/degustação pela Viña Undurraga, aonde o Sr. Germano (um enólogo chileno muito simpático e contador de piadas sobre argentinos) nos conduziu pelas áreas dos vinhedos, da produção e do armazenamento dos vinhos ali concebidos. Foram momentos entres histórias da família que fundou a vinícola (Dom Francisco Undurraga) e dos atuais proprietários que são colombianos. Neste Vale a Undurraga possui duas vinícolas: a Santa Ana, localizada no coração do Maipo, na comuna de Talagante, a 34 km de Santiago, e que tem uma área de 140 hectares de vinhedos, e a Codigua, situada na comuna de Melipilla, a 70 km de Santiago e a 30 km do Oceano Pacífico. Esta última possui ma área de 250 hectares, que graças à proximidade com o Pacífico, produz magníficas uvas brancas das cepas chardonnay e sauvignon blanc e da variedade tinta pinot noir. Após visita às instalações da Santa Ana, fomos conduzidos pelo próprio Germano para uma degustação de 06 vinhos: Aliwen Sauvignon Blanc, Aliwen Chardonnay, Aliwen Cabernet Sauvignon e Syrah, Aliwen Cabernet Sauvignon e Merlot, Late Harvest e o Altazor Cabernet Sauvignon. Os três primeiros são vinhos produzidos para consumo no dia-a-dia e devem ser consumidos ainda jovens, pois não são vinhos de guarda. O Late Harvest, produzido a partir da cepa semillon blanc, nos surpreendeu pela qualidade que nos fez lembrar os Late Harvests produzidos na Região de Sauternes, na França. Por fim, fomos brindados com o vinho ícone da Undurraga, o Altazor Cabernet Sauvignon que possui uma coloração rubi, e aromas complexos e equilibrados entre madeira e frutas maduras, apresentando um paladar encorpado e com taninos maduros, o que lhe assegura uma vida longa, podendo ser guardado por uns 10 anos mais.

Em seguida, após as despedidas na Undurraga, nos dirigimos para a pequena Caves del Maipo, uma vinícola de garagem como diríamos no Brasil, administrada por Don Jaime e seus filhos, que produz bons vinhos varietais denominados Caves del Raco, produzidos com as cepas chardonnay, sauvignon blanc, carmenère, cabernet sauvignon e o rose a partir da cabernet sauvignon. Todos são vinhos para serem consumidos no dia-a-dia, sendo vinhos leves e bons acompanhante de queijos e embutidos frios. A produção é pequena, porém cuidadosa. Após visita às instalações, fomos convidados pelo Don Jaime para rotular algumas garrafas do Caves del Raco Chardonnay, sendo que uma delas nos foi presenteada quando da nossa partida. Um vinho que ainda não é importado pelo Brasil, mas que se tiverem a oportunidade não deixem de experimentar.

Por fim, visitamos a Viña Concha y Toro que é a vinícola mais conhecida do Chile e que se localiza na comuna de Pirque, distante 27 km de Santiago. Na alta temporada não é recomendável a visita, pois a mesma vira uma roteiro pré-concebido de poucos vinhos, nada de informação técnica e o interesse de vender muitas garrafas para os turistas. Depois de uma introdução histórica na frente do casarão da família que fundou a vinícola (Don Melchor Concha y Toro), fomos conduzidos à primeira degustação com dois vinhos:  Casillero del Diablo Syrah e Casillero del Diablo Carmenère. Dois vinhos de qualidade, sendo que o primeiro se apresenta com cores vermelhas escuras, intensas, com reflexos violáceos acentuadas e aromas de especiarias, vegetais e frutas vermelhas. Vinho de corpo leve e taninos discretos o que lhe confere certa suavidade. Já o segundo se apresenta com coloração vermelho escura, intensa, profunda, com reflexos violáceos e aromas  marcantes de ciruela negra, groselha e chocolate, Na boca a textura é suave e bem estruturada com notas de especiarias marcada generosamente pelo tostado do barril de carvalho americano.

Em seguida fomos conduzidos a cave mitológica do Casillero del Diablo, onde, num momento teatral, podemos observar a figura do mesmo tomando conta da adega. Em uma outra oportunidade conto como se originou esta lenda.  Logo após nos conduziram para a degustação do terceiro vinho: Marques de Casa Concha Merlot, considerado por muito entendidos chilenos, como um grande vinho.  Coloração vermelho escuro e profundo, com aromas de cereja, amora e tabaco. Vinho complexo com grande concentração de aromas, tais como cereja, amora, tabaco, baunilha. Na boca apresenta-se bem estruturado e equilibrado, com taninos maduros, o que lhe permite uma longa vida. Realmente um vinho que nos surpreendeu.

Confesso que fiquei um pouco frustrado com esta visita, pois nas duas anteriores, fomos recebidos (eu, Célia minha esposa e Ciça minha filha) para uma visita técnica mais particularizada. Na Concha y Toro, acabamos nos misturando aos turistas que visitavam a vinícola, àquela hora e sentimos um pouco a falta de uma comunicação mais técnica.  Desgostos à parte, o tour não é de todo ruim, pois você pode provar, pagando é claro, do ícone Dom Melchor, um dos bons vinhos do mundo. 

Até semana que vem, com o Vale de Casablanca.


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