DUAS QUINTAS - 25 ANOS

 

Um dos produtores mais renomados do Douro é a Casa Ramos Pinto, fundada por Adriano Ramos Pinto, em 1880. É, também, um dos mais conhecidos no Brasil, visto que desde o início, este foi um importante mercado para este grande produtor de vinhos do Porto. Na verdade, foi com foco na clientela brasileira que a Ramos Pinto foi criada.

Apesar de ter 135 anos de história, foi apenas nos anos 90 que a casa começou a produzir vinhos de mesa. E, este ano, o primeiro vinho tinto de mesa produzido pela vinícola completou 25 anos. Eu tive o prazer de participar, juntamente com o seu criador, o enólogo João Nicolau de Almeida, de uma degustação vertical* de várias safras do Duas Quintas.

João Nicolau de Almeida contando a história do Duas Quintas

João Nicolau é, hoje, Administrador e Diretor de Enologia da Ramos Pinto (apesar de já ter anunciado que irá se “aposentar”, em breve). Formado em Enologia em Bordeaux, regressou a Portugal no final dos anos 70 e recebeu um convite do tio José Rosas conhecer a Quinta de Santa Maria (depois chamada de Quinta de Ervamoira, em homenagem a um romance de uma escritora francesa, que descrevia uma quinta tal qual era esta), no Douro Superior, região ainda não explorada, na época.

José Rosas queria produzir ali apenas as cinco melhores castas da região e propôs ao sobrinho fazerem um estudo detalhado das castas utilizadas no Douro, visando melhorar a qualidade do vinho do Porto, mas como João Nicolau havia estudado em Bordeaux e aprendido a fazer vinho de mesa, propôs fazer um estudo para Porto e outro para vinho de mesa.

Na Quinta da Ervamoira plantaram, pela primeira vez, no Douro, vinhas ao alto e em talhões. Cada talhão correspondia uma casta diferente. No restante da região ainda se plantavam as vinhas misturadas.

Quinta da Ervamoira - foto tirada na minha visita, em maio/2015

Depois de vários anos de estudos, chegaram à conclusão que as melhores variedades para a produção de vinhos do Porto e vinhos do Douro de mesa eram: Touriga Nacional, Tinta Cão, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Francesa (hoje chamada Tinta Franca), para os tintos. Já no caso dos brancos, a lista reduziu-se para apenas quatro: Vinhosinho, Rabigato, Arinto e Folgozão.

Em 1990, na época da compra da Casa Ramos Pinto pelo grupo Louis Roederer, João Nicolau de Almeida contou que havia produzido 80 mil litros de vinho de mesa do Douro, com uvas provenientes de duas propriedades: Quinta dos Bons Ares e Quinta da Ervamoira. Recebeu autorização para engarrafar os vinhos e precisou enviá-los para uma adega engarrafadora que ficava a uns 30km de distância. Na volta, numa noite absurdamente gelada, os vinhos engarrafados acabaram congelando. Foi preciso desengarrafar todo o vinho, decantar e engarrafar novamente. No final, a primeira safra saiu com uma produção de 60 mil litros. E, rindo, o enólogo diz que agora pode contar essa história, afinal, já se passaram 25 anos.

Até então, o vinho não tinha um nome. João Nicolau chegou em casa, contando que precisava engarrafar o vinho, mas que ainda não tinha um nome. E a esposa perguntou: “Mas é o vinho de onde (de que quinta)?” “Das duas quintas” “E por que não coloca o nome de Duas Quintas?” e assim foi.

E foi com este mesmo vinho, com 25 anos, que começamos a nossa degustação. Todos os vinhos são produzidos na adega central da Ramos Pinto, na Quinta de Bons Ares. Uma adega gravitacional, que conta com cubas de madeira, inox, cimento, lagares manuais e com robots, prensas tradicionais e pipas de madeira de tamanhos variados.

Os dez vinhos degustados

Duas Quintas Douro Tinto 1990

Formado por um lote de Touriga Nacional e Tinta Barroca, com seis meses de estágio em pipas de carvalho e mais dois anos em garrafa. O resultado, 25 anos depois, impressiona! A coloração já está no tom granada, com aromas sutis de frutas vermelhas, especiarias, couro e um leve toque de creme brulée. Ainda com ótima acidez, taninos muito macios e final longo. Simplesmente maravilhoso! Sem dúvidas, meu preferido da noite.

 

Duas Quintas Reserva Douro Tinto 1992

Somente em 91 começaram a produzir vinhos “Reserva”.

O ano de 1992 foi caracterizado por um inverno seco e um verão quente, com temperaturas mais amenas na época da colheita. O resultado foi um ano com bagos pequenos e uma produção reduzida. Parte das uvas foi fermentada em lagares com pisa a pé (vindas da Quinta da Ervamoira) e parte em cubas de inox (aquelas da Quinta dos Bons Ares) e apenas 20% do vinho estagiou em cascos de carvalho português e francês durante 9 meses, com mais um ano em garrafa. Este lote é formado por 50% de Touriga Francesa, 25% de Touriga Nacional e 25% de Tinta Barroca (confere maciez). Cor rubi granada, apresentando resíduos. Frutas maduras, como passas e ameixas, com um quê de vinho do Porto (nos aromas) e um toque de café no paladar. Boa estrutura, acidez ainda viva e taninos macios. Um vinho elegante. Foi o primeiro vinho português no International Wine Challenge.

Duas Quintas Reserva 1994

Um ano com maturação perfeita, considerado o melhor da década de 90. Diferentemente do ano anterior, 40% do lote estagiou em cascos de carvalho durante os mesmos 9 meses e com o mesmo tempo em garrafa. 40% Touriga Nacional, 30% Touriga Franca e 20% Tinta Barroca. Cor ligeiramente mais intensa, com aromas acentuados de frutas maduras, café e flores secas, com algo de caramelado. Um vinho cheio e complexo. Mais seco no paladar, com um pouco menos de acidez e taninos mais presentes. Final prolongado. Talvez o meu segundo preferido.

Duas Quintas Reserva 1997

Apesar de ter sido um ano que começou complicado, o resultado final foi de uma colheita memorável, com vinhos muito estruturados. No lote, entrou 50% de Touriga Nacional, 30% de Touriga Francesa, 10% de Tinta Barroca e mais 10% de Tinta da Barca, com 60% de estágio em cascos apenas franceses por 9 meses com mais um ano em garrafa. Coloração rubi com reflexos granada. Aromas de frutos escuros maduros, com um tom vegetal, tabaco e pimenta preta. Boa acidez e taninos bem presentes.

A Tinta Barroca trazia mais acidez e mais taninos ao lote, mas também embutia um aroma mais verde. Hoje, conhece-se melhor a casta e consegue-se mais maturação, evitando-se, assim, este toque vegetal.

Duas Quintas Reserva 2000

Ano não muito estável, mas que rendeu frutas em excelentes condições e de bagos pequenos. Desta vez, 80% do vinho (um blend de 50% Touriga Nacional, 30% Touriga Francesa, 10% Tinta Barroca e 10% Tinta Roriz) permaneceu em cascos de carvalho francês por 12 meses, com mais um ano de estágio em garrafa. Cor rubi intensa e muita concentração. Aromas de frutas silvestres em compota, ameixa seca, café e um toque defumado. Acidez fresca e boa estrutura de boca.

Duas Quintas Reserva 2005

Foi um ano excelente no Douro. Lote de 80% Touriga Nacional, 15% Touriga Franca e 5% Tinta Barroca. Durante 14 meses, o vinho estagiou em cascos de 225 litros. Cor rubi violáceo, com frutas silvestres menos cozidas e mais floral, com bom equilíbrio da madeira. Acidez mediana e taninos marcantes, com um final de boca balsâmico. Apesar de já ter 10 anos, ainda merece alguns anos em garrafa.

Duas Quintas Reserva 2008

Um ano frio, com maturação lenta das uvas gerou vinhos com grande frescor, na região. O lote de 40% Touriga Nacional, 40% Touriga Francesa, 15% Tinta Barca e 5% Sousão estagiou, desta vez, por 18 meses em barricas francesas. Violáceo, com muita concentração. Frutas vermelhas, baunilha e toques tostados. Cheio, muito fresco na boca, com taninos marcantes. Ainda jovem.

Duas Quintas Reserva 2011

Um ano memorável no Douro. Recentemente, a melhor safra dos últimos tempos, com vários vinhos da região se destacando em grandes publicações. Seguindo a mesma vinificação do ano anterior, este corte de 50% Touriga Nacional, 40% Touriga Franca e 10% Tinta Barroca resultou num vinho violáceo e intenso, com aromas acentuados de ameixas secas, chocolate, ligeiramente floral e com paladar especiado. Acidez equilibrada, taninos polidos, mas ainda sente-se o álcool (14%). Mais alguns anos, e estará bem integrado e evoluído, com um potencial fantástico.

Duas Quintas Reserva 2012

Ano com temperaturas amenas, que gerou bagos pequenos e concentrados, com muita frescura. Foi neste ano que deixaram de usar herbicidas em todas as vinhas da Ramos Pinto. O lote de 60% Touriga Nacional, 30% Touriga Franca e 10% Tinta da Barca estagiou por 20 meses em barricas novas e carvalho francês e austríaco. Mesma cor do anterior, com aromas um pouco menos intensos e mais terrosos, com um pouco de tabaco e leve amargor no paladar. Boa acidez e taninos maduros, com final longo.

Duas Quintas Reserva 2013

O ano gerou vinhos muito concentrados, num lote que contém 66% de Touriga Nacional, 21% de Touriga Franca e 13% de Tinta da Barca, que estagiaram por 16 meses de barricas novas francesas e barricas usadas (de um e dois anos) austríacas. Cor violeta densa, com aromas muito florais, frutos vermelhos, jambo e pimenta preta. Acidez equilibrada, taninos marcantes, mas aveludados e final tostado.

Depois de tudo o que foi provado, apenas uma conclusão: os vinhos do Douro foram feitos para envelhecer. E por longos anos! Apesar de serem agradáveis quando consumidos ainda jovens, são vinhos com grande estrutura e potencial para se tornarem mais elegantes com alguns anos em garrafa.

Foi uma prova incrível, com histórias super interessantes contadas pelo grande João Nicolau de Almeida e que só me fez respeitar ainda mais esses vinhos e essa Casa que há 135 anos só nos presenteia com produtos especiais. 

* Prova vertical - degustação de um mesmo vinho de várias safras (anos) diferentes.


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