O Dilema de Guardar ou Beber um bom Vinho

Contaram-me, há vários anos, que um homem que gostava de beber vinho guardara algumas dezenas de Barca Velha, sentindo-se perante um terrível dilema quando pensava no assunto.
 

Pouco recente, o seu Barca Velho (o famoso vinho tinto do Douro que só aparece no mercado quando a sua qualidade é considerada indesmentível) era religiosamente guardado. Para o seu possuidor, era um fator de orgulho e um investimento: iria vendê-lo por muitas vezes mais o que pagara para o adquirir. Sem cuidar de saber se o que se encontrava no interior das suas garrafas ainda era bebível. Esse problema que o enfrentasse quem lhe comprasse as garrafas.

Não sei o desfecho do caso mas sei que, vendendo-o ou esperando para ele se valorizar mais, este investidor ficaria sempre incompleto: nunca beberia o vinho que considerava de excelência. O seu gosto pelo vinho não seria, portanto, universal.

As garrafas de vinho são presenças habituais em leilões e os preços que atingem podem ser estratosféricos. Quem comprou uma garrafa de um vinho já famoso por R$ 300 poderá um dia vendê-la por R$ 3000. Mas nunca o provou. E o mesmo poderá acontecer ao seu comprador. E por aí adiante. O Barca Velha é um dos melhores exemplos desta situação.

Mas esta perspectiva é um pouco frustrante. O vinho é um organismo vivo. Na garrafa, em boas condições de armazenamento, pode ser melhor do que já era. O sabor e o cheiro podem apurar-se. Mas, se não a abrirmos, nunca o saberemos. Nunca desfrutaremos daquilo que ela nos oferece.

Este dilema tem uma outra versão: compramos um vinho que calculamos que seja bom. Se não era uma garrafa única, podemos consumi-las ao longo de anos, seguindo a evolução natural do conteúdo. Mas ficamos sempre reduzidos à última, ou única, garrafa. E se ele já é bom, não ficará ainda melhor? Não será preferível esperar ainda mais?

Já me aconteceu com um Dão de 2005, que era absolutamente extraordinário. Obtive as 12 últimas garrafas disponíveis no produtor, trouxe-as para o Brasil e bebi-as e sempre em boa companhia. E um dia acabou-se. O seu gosto nunca se perdeu mas… e se eu tivesse esperado mais alguns anos?

Não há, na minha adega, vinhos que não beberei. Posso hesitar perante alguns, esforçar-me por deixá-los mais tempo conforto do escuro e da temperatura de 15ºC, mas chegará o dia em que encontrará o seu destino. E dele guardarei memória, e recordações, do momento em que foi bebido, de quem me acompanhou, das outras circunstâncias em que o fui provando ao longo do anos.

 

O meu investimento, sommelier que sou, é no gosto e na memória. Não creio que pudesse ser de outra maneira.


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