Um Bom Vinho

Um Bom Vinho

 

Reflexões Sobre Qualidade

Ricardo Albergaria

 

    Tendo me conformado com a idéia de que não há tal coisa como um critério objetivo para descrever o que é qualidade de um vinho, comecei a deliberar sobre o que penso que todos devemos fazer para racionalizar nosso paladar e preferências.

    Comecei a procurar em outras criações artísticas o que poderia servir de modelo para minhas crenças pessoais sobre a qualidade do vinho. O que eu procurava eram expressões em outras formas de arte que, na falta de uma palavra mais adequada, me "tocassem" de uma maneira real e visceral. Ao experimentar esse tipo único de toque, perguntei a mim mesmo o que há nas obras de arte que é capaz de mexer comigo, de provocar lágrimas, alegria, euforia, meditação. Se eu pudesse identificar o que é que mexe comigo através de outra forma de arte, eu poderia então encontrar o modelo que descreve, para mim, o que é qualidade.

    E  após um período de reflexão eu encontrei esse modelo na música da alguns cantores e grupos de Minas Gerais, tais como: Milton Nascimento, Flavio Venturini, Beto Guedes, 14 Bis, entre outros. Escutar “Caçador de Mim”, “Cais”, “Espanhola”, “Linda Juventude”, “Mera Invenção”, “Nascente”, “Paisagem da Janela”, “Partituras”, “Princesa”, “Todo Azul do Mar”, me toca profundamente, e isso acontece cada vez que eu as escuto. Absorver as melodias e letras destas músicas sempre me paralisam e me fazem retornar aos tempos da Universidade de Uberaba, onde o vinho tomado tinha que ser bem baratinho por razões obvias de todo estudante que mora fora da casa dos seus pais: “grana curta”.

    Então, o que há nessas músicas e nesses artistas que é tão especial para mim, pessoalmente? Autenticidade! A autenticidade do som, das expressões, das gravações não adulteradas de instrumentação produzida pelas mãos do homem, ao invés dos “uns” e “zeros” da música gerada por computadores. Há também afinidade a ser considerada. A conexão deste tipo de música comigo tem muito a ver com a substância da sua mensagem e sentimento, com os quais eu claramente tenho afinidade.

    Pode um vinho me tocar da mesma maneira? Parei um pouco para pensar e notei que sim. Sei certamente que ligado na tenra infância por hábitos e costumes de uma família tipicamente portuguesa que consumia vinho diariamente, encontro minhas origens que me trazem recordações de um passado delicioso, repleto de boas conversas ao entardecer, sempre regadas de bons vinhos portugueses. Minha mãe contando histórias dos parentes que viviam num país além-mar, dos antepassados que viveram nos Açores e da saudade que eu sentia sem nunca ter estado lá. Mas como podem notar o vinho para mim não é simplesmente uma bebida... é um momento, uma reflexão, uma volta as minhas origens, uma saudade embutida em cada aroma.

    Sei certamente que as qualidades que encontro neste estilo de música podem ser encontradas no vinho e tenho certeza que, ao ver ou provar sua expressão, eu saberei que encontrei minha versão de vinho de "alta qualidade". Não existe uma coisa chamada critério objetivo para definir qualidade no vinho, mas apenas o conforto que vem com a familiaridade e afinidade que permite a cada uma de nós definir sua preferência. Há ainda uma pergunta final que, considerando tudo o que foi dito acima, que nos pede uma resposta: de quem serão as experiências familiares e afinidades que definirão a qualidade?

    A resposta está dentro de cada um de nós. Nossas preferências... Nossos momentos... Nossas lembranças... Nosso aprendizado. Houve um tempo em que eu não gostava de rúcula, de radicci, nem de pesto. de teimosia fui provando aqui e ali, e aprendi a apreciar sabores amargos e marcantes. Naquela arrogância natural de quem consegue dizer meia dúzia de frases em alemão e acha que pode se virar em Berlim, achamos que sabemos tudo sobre vinho e podemos dizer que gostamos e do que não gostamos na nossa taça. E com isso,  às vezes deixamos de degustar vinhos de excelente qualidade, pelo simples fato de que sempre estamos pedindo que o vinho se apresente e fale conosco.

    Aos meus leitores e amigos, só posso deixar uma mensagem final: “No caminho da enologia temos que sentir a magnitude da estrada que nos propusemos a percorrer, levando sempre em nossa bagagem a certeza de que para entender um vinho não é ele que tem que falar conosco, somo nós que precisamos aprender a ouvi-lo”.

    Boas recordações, bons momentos com a família e amigos e bons vinhos de qualidade de acordo com sua preferência.


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