Um passeio pelo Alentejo, entre vinho e História

Se quer passar um dia tranquilo, a comer bem, beber melhor e descansar o espírito, o Monte da Ravasqueira, em Arraiolos, é uma boa opção

 

A paisagem alentejana é sempre uma aposta segura. É terra onde é difícil ir e não regressar com um sorriso - além da mente descansada, arejada. É provável que seja a planura do espaço, a possibilidade de olhar e ver terra quase sem fim, sem obstáculos nem desníveis geográficos. Os 3000 hectares da Ravasqueira têm precisamente esse efeito sobre quem chega. Quando José Manuel de Mello, o empresário que fundou a CUF e a Lisnave, comprou aquele monte, em 1943, apenas o usava como reserva de caça. Depois, pouco a pouco, vieram os cavalos, a produção de cortiça, azeite e mel, a criação de gado bovino. Só muito mais tarde chegou o vinho.

 

Latifúndio típico daquelas bandas, a Ravasqueira dava trabalho a 600 pessoas que ali viviam como uma grande família alargada. A revolução de Abril, em 1974, levou à nacionalização do Monte e obrigou a família a exilar-se na Suíça. Só em 1986 José Manuel de Mello recuperaria a sua propriedade na íntegra. Desenvolveu a coudelaria, com cavalos lusitanos (que até 2009 foram um dos grandes negócios da Ravasqueira), e mais tarde o vinho. Com os cavalos, concretizou o seu primeiro sonho: pôr o cavalo lusitano na boca de todos. Em 1996, ganhou o campeonato do mundo de atrelagens. Mais tarde, em 2001, iniciou o seu outro desígnio: "produzir o melhor vinho do Alentejo". Plantou 45 hectares de vinha e um total de 15 castas, algumas escolhidas por ele. Chegou a provar o seu vinho, mas um acidente que o levou ao coma, em 2006, trocou as voltas a tudo. A sua morte, em 2009, mudou também o curso do Monte.

 

O vinho, cuja produção se iniciou em 2001, seguiu um caminho regular até 2012. Nessa altura, a chegada de um novo enólogo, Pedro Pereira Gonçalves (com muito trabalho vinícola no Novo Mundo, na Austrália, Chile e Nova Zelândia), imprimiu uma dinâmica nova à criação de vinhos do Monte da Ravasqueira. Pedro pratica uma viticultura de precisão, em que um avião sobrevoa a vinha e faz uma fotografia aérea multiespectral, mostrando o grau de clorofila das vinhas e a sua "variabilidade". A partir daí, desenvolveu a gama Premium da Casa, com vinho branco, tinto e rosé. O Monte da Ravasqueira branco estagia um ano em barrica de carvalho francês, sem qualquer influência do enólogo; o tinto estagia 22 meses e o rosé seis. Isso torna o vinho "mais gordo e mineral", explica Pereira Gonçalves.

A casa de vinhos foi das primeiras a criar um rosé Premium, afiança o enólogo. Este, que é vendido a 25€ a garrafa, "é muito representativo da Ravasqueira, pois tem uvas tintas dos cinco talhões da herdade", explica. Há ainda dois outros vinhos para os quais Pedro chama a atenção: o Vinha das Romãs, com castas de um antigo talhão de romanzeiras, que dão um travo peculiar ao vinho, e o seu preferido, o Syrah-Viogniers. Na edição de maio da conceituada revista de vinhos norte-americana "Decanter", dois vinhos da Ravasqueira mereceram distinção: o Vinha das Romãs 2013 foi considerado "outstanding" (a categoria máxima de excelência) e o Monte da Ravasqueira Reserva Tinto 2013 obteve a classificação "highly recommended". Também o Late Harvest do Monte da Ravasqueira é uma novidade da Casa (e uma aposta conseguida). E em 2016 vão ainda lançar o primeiro espumante da casa, que está em estágio desde 2012.

 

Ir passar um dia (ou dois) à Ravasqueira pode ter vários momentos: começar com uma prova de vinhos, seguir para almoço no restaurante da herdade (que tem de reservar com antecedência), visitar o Museu dos Arreios e das Atrelagens ali na propriedade, que tem uma das maiores coleções privadas do mundo – com 37 atrelagens, do século XVIII ao XX -, e terminar a dormir o sono dos justos num dos 12 quartos do enoturismo. O passeio é de sucesso quase garantido.


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